Sarajevo oferece suas lembranças e traumas de guerra como atração turística

9 mar 2017
10h01
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Entrar no túnel que conectou Sarajevo com o mundo durante o cerco à cidade, visitar o mercado de Markale, no qual 69 civis morreram em um bombardeio, ou atravessar a "avenida dos franco-atiradores" são parte da oferta de turismo de guerra oferecida pela capital da Bósnia.

Essas são as várias paradas de alguns dos circuitos turísticos que percorrem e lembram os anos mais tristes da história recente de Sarajevo, os da guerra civil de 1992-1995.

"Sarajevo Times of Misfortune Tour", "3 Hour Balcans Dark Side & War Tour" e "Sarajevo Total Siege" são três das ofertas que atraem cada vez mais visitantes.

O Túnel D-B, popularmente chamado Túnel da Esperança, é um dos destinos mais solicitados. Em 2016, o pequeno trecho que ainda fica aberto e o museu que explica sua história foram visitados por 120 mil dos 400 mil turistas que passaram por Sarajevo.

Ainda é possível percorrer os últimos 25 dos 800 metros que teve a passagem subterrânea de 150 centímetros de altura e 100 de largura, pela qual entraram armas, combustível e mantimentos à cidade e que foi também a única via de escape durante os 30 meses que durou o cerca das forças servo-bósnias.

"Enquanto cruzam agachados estes 25 metros, pedimos que imaginem o que era caminhar pelo barro profundo e que voltem a atravessar, desta vez com uma carga de 50 quilos na mochila", disse à Agência Efe Edina Memic, curadora da exposição sobre o túnel.

Outra experiência especial, única no mundo, espera no Hotel da Guerra, segundo assegura à Efe seu proprietário, Arijan Kurbasic, que recebe o visitante vestido com uniforme militar e capacete.

Neste surpreendente estabelecimento, os hóspedes podem tentar imaginar como era a vida dos moradores de Saravejo durante a guerra de 1992 a 1995, que confrontou muçulmanos, sérvios e croatas da Bósnia e deixou 97 mil mortos.

Só em Sarajevo houve mais de 11 mil vítimas mortais, 1,1 mil delas crianças.

O hotel, pelo qual os visitantes se movimentam à luz de velas, oferece quartos com lâmpadas e janelas tapadas com rolo de plástico e grossos cobertores militares.

Os funcionários deste peculiar hotel vestem uniformes militares e servem os alimentos que eram consumidos na guerra, como bolo de arroz, lentilhas, pão ázimo e latas de sardinhas.

Quem pernoita ali escutará durante toda a noite os ruídos de explosões.

No refúgio antibombas que foi recriado é possível ainda ver documentários sobre o cerco e ler artigos de imprensa daquela época pegados nas paredes.

Dessa forma, Kurbasic deseja que seus visitantes, ao viverem estas difíceis condições, sejam mais conscientes do quão sortudos são por terem as comodidades da vida contemporânea.

Por sua vez, o guia turístico Edin Bazdarevic conduz seus clientes em um tour que começa no Bastião Branco, uma torre de época otomana da qual se vê a cidade e os montes que a cercam.

"Esta geografia é a que trouxe pra Sarajevo em 1984 os Jogos Olímpicos de Inverno. Oito anos depois, desses montes começaram a disparar, a destruir as vidas e o patrimônio cultural", recordou.

Sua rota segue pela Afasta Snajpera, a "avenida dos franco-atiradores", o bulevar do qual os atiradores servo-bósnios disparavam contra tudo o que se movimentasse.

A rota segue pelo mercado central de Markale, onde em 5 de fevereiro de 1994 uma granada de morteiro acabou com a vida de 69 civis e feriu outros 150.

Depois continua com uma visita ao monumento às crianças que morreram na guerra e por um hospital maternal que foi incendiado durante o conflito.

O ponto final do tour é o cemitério militar Kovaci, onde repousam 1.487 soldados e policiais mortos no conflito.

Bazdarevic contou que os turistas gostam de escutar histórias sobre a coragem e a criatividade do povo e de sua capacidade de sobreviver nas condições "de uma vida sem nada".

Como se aqueciam e cozinhavam em uma estufa cujo combustível eram sapatos ou onde recolhiam a água quando o fornecimento ficou cortado são algumas das façanhas que mais lhes interessam.

A exposição "Sarajevo Sitiada" no Museu da História da Bósnia-Herzegovina exibe objetos de "guerra" como armas improvisadas, recipientes de ajuda humanitária, geradores de eletricidade elaborados à mão ou fragmentos do diário de uma professora que morreu com seus alunos após uma bomba cair em sua sala de aula.

"A potência dos objetos da época do cerca é intensa. Celebram a vida e o desejo de sobreviver", resumiu a diretora do museu, Elma Hasimbegovic.

Em Bascarsija, mercado tradicional do centro de Sarajevo, os artesãos vendem lembranças como pingentes, canetas e vasos elaborados e talhados em cápsulas de projétil de bala e de granadas.

EFE   

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