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"Não sinto a menor falta de tudo isso", diz João Braga

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O professor João Braga, historiador e professor de moda, gastou 25 créditos de seu cartão telefônico de 50, que custa R$ 7, para retornar o pedido de entrevista ao Terra. Ele não dirige, não tem conta de e-mail, não tem celular e só consegue pegar os recados da secretária eletrônica particular em orelhões. E se diz absolutamente feliz em viver assim. Ele teme sobretudo a necessidade que as pessoas têm de ficar conectados os tempo todo. O mais peculiar, no entanto, é que tem até comunidade no Orkut, com mais de 700 pessoas, criada por alunos: "Eu Amo o João Braga". Confira seu depoimento:

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"Alguns alunos chegam à aula pela manhã mal dormidos porque passaram a noite na internet. Além disso, muita gente precisa checar a cada dez minutos mensagens que nem existem. É um vício, uma dependência. Não nego os benefícios das novas tecnologias, mas não quero ser escravo delas. Fora que não tenho a mínima afinidade com tais recursos modernos. O engraçado é que até criaram comunidade no Orkut com frases minhas etc. Não acesso. De vez em quando, alguém me mostra algo sobre mim que saiu na Internet, mas é muito raro. Tiram cópia da matéria e me trazem também.

Moro sozinho, mas não sinto a menor falta disso tudo. Nos tempos livres, leio, escuto música e, às vezes, vejo TV. Também não preciso de carro, moro perto de onde trabalho e vou a pé. Posso demorar, mas respondo a todos os recados deixados na secretária eletrônica. O uso do celular, hoje, é feito de forma abusiva e, em geral, com falta de educação. Celular ligado na missa, por exemplo, é um desrespeito. Sou cruel. Proíbo terminantemente o celular na classe. Tem gente que nem copia mais a lição da lousa, tira foto com o celular. Isso não pode acontecer.

Já dei aula à distância, por internet, mas isso só porque tinha uma assistente que mexia na máquina para mim, imprimia os textos, que eu lia depois, e ela lançava as notas lá. Mas ainda não acho que esse tipo de aula seja ideal. Nada substitui a presença, o entrosamento entre um aluno e um professor na sala de aula. A escola é um local de socialização e isso a gente não pode perder. E as tecnologias tiram isso da gente. Tudo, no entanto, precisa ser bem dosado. Não dá para se viciar e se escravizar.

Nunca senti falta de nada dessas coisas. Até hoje escrevo meus livros à mão (ele está por lançar um livro sobre moda brasileira) e depois contrato alguém para digitalizar.

O aparelho de secretária eletrônica de casa quebrou, mas até hoje guardo todas as fitas de recados que as pessoas deixaram para mim, que estão, inclusive, anotados em cadernos, por dia e hora. Hoje, pego os recados à noite do orelhão, porque não consigo acessar de casa (também não tenho bina). Respondo nos intervalos das aulas ou quando tenho um tempo livre. Sempre retorno. Outro dia, uma repórter entrou em contato comigo para saber sobre um termo específico de moda. Quando retornei o recado, respondi à sua pergunta e ela disse que tinha procurado no Google e em vários sites sobre história da moda e não tinha achado o significado. Ou seja, isso mostra que a internet não é tudo. Posso parecer fora do tempo, mas sou muito feliz assim. Tenho meus amigos, faço minhas coisas como sempre fiz."

Fonte: Especial para Terra
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