Casos de estupro afetam turismo na Índia

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Um estupro fatal em Nova Deli não impediu as turistas alemãs Carolina De Paolo e Canan Wahner de viajarem para a Índia para um tour de seis semanas. O ataque foi horrível, mas elas chegaram à conclusão de que há crime em todo lugar e decidiram tomar precauções.

Então, um homem se aproximou de Wahner no trem para Goa e passou a mão por sua perna após algumas semanas de viagem. Em outro trem, um homem agarrou os seios de De Paolo por trás.

“Eu queria gritar e fazer algo, mas ele fugiu”, disse De Paolo. Ela nunca relatou o crime por achar que não teria resultado. As duas mulheres, de 22 anos, disseram que houve momentos em que não se sentiram seguras, mas insistem em dizer que voltariam à Índia.

Isso as separam de muitos outros turistas, que estão optando por não fazer a viagem.

Violência contra a mulher e a forte publicidade gerada pelos recentes ataques no país ameaçam a indústria turística indiana de US$ 17,7 bilhões. Um novo estudo mostra que o turismo despencou, especialmente entre as mulheres, desde que uma estudante de 23 anos foi estuprada em um ônibus em Nova Deli e morreu depois devido aos ferimentos – um caso que ganhou repercussão ao redor do mundo. O governo nega qualquer queda no turismo.

As preocupações cresceram ainda mais após o relato do estupro de uma suíça na Índia central no mês passado e depois que uma britânica pulou da janela de seu quarto de hotel temendo que o gerente que tentava entrar em seu quarto fosse abusar sexualmente dela. Este incidente ocorreu em Agra, onde está o Taj Mahal, uma das principais atrações turísticas do país.  

Comerciantes dizem que a Índia está sendo julgada injustamente, mas a percepção é tudo no negócio de turismo. E as empresas que servem o turismo também já estão sofrendo.

A chegada de turistas estrangeiros caiu 25% desde do estupro em Nova Deli, em dezembro, e o número de viajantes mulheres caiu 35%, de acordo com o estudo da Câmeras Associadas do Comércio e Indústria, de Nova Deli. O estudo, que entrevistou 1.200 operadoras de turismo em todo o país, indica que “preocupações sobre a segurança das viajantes do sexo feminino” mudaram os planos dos turistas. Em vez de visitarem a Índia, eles estão indo para países vistos como mais seguros, como Tailândia, Vietnã e Filipinas.

O ministro do turismo K. Chinanjeevi contradisse a pesquisa, dizendo que a chegada de turistas entrangeiros na Índia cresceu 2,1% entre janeiro e fevereiro.

Mas Mehaj Shora afirma que é muito difícil ver isso quando as vendas de sua loja de tapeteem Mumbai secam. “Está ficando pior a cada dia”, lamenta Shora. “Os turistas estão vindo, mas não como antes”.

Nos bons tempos, Shora costumava vender dois ou três tapetes de kashmiri por dia a visitantes estrangeiros ao preço de US$ 300. Agora, alguns dias se passam sem que ele tenha vendido uma única peça. Ele estima que as vendas tenham caído 50% e diz que os casos de estrupo se somaram à tensão pela economia estagnada.

Ele culpa a mídia internacional por promover os casos recentes quando crimes ocorrem em todos os países. “Na verdade, a Índia é bastante segura. Em alguns aspectos é mais segura do que outros lugares.”

Porém, assim como o caso de estupro em Nova Deli provocou um clamor nacional contra os maus tratos às mulheres, os ataques às turistas jogaram luz ao que já é sabido há muito tempo: mulheres que viajam à Índia, especialmente sozinhas, frequentemente enfrentam avanços indesejados por parte de homens.

Crimes contra turistas do sexo feminino acontecem em toda parte - a Tailândia, por exemplo, viu pelo menos três estupros de turistas estrangeiros este ano. Nas Filipinas, um homem local foi preso em janeiro sob a acusação de estuprar uma britânica de 23 anos na ilha turística de Boracay. Mas na Índia é particularmente fácil encontrar histórias de mulheres estrangeiras que, assim como as indianas, foram perseguigas ou atacadas.

A modelo italiana Ginevra Leggeri, de 21 anos, diz que ela não tinha sido avisada quando um homem a agarrou por trás quando ela andava com uma amiga em Mubai, para onde ela foi a trabalho há alguns meses.

"Eu estava completamente coberta e estávamos apenas caminhando, e esse homem me tocou, e eu comecei a gritar e eu lhe dei um tapa", disse ela.

Sua amiga e colega de trabalho, Amy Manson, de 19 anos, rapidamente apontou para dois homens indiano passando de moto, que viram o incidente e enfrentaram o agressor.

“Um indiano a agarrou, mas outros dois rapazes indianos vieram e nos ajudaram”, disse Manson. “Então, é uma situação 50-50.”

Mas ela hesita quando perguntada se recomendaria a uma amiga visitar a país, e concorda que o turismo indiano será prejudicado se o país não adotar medidas para proteger as mulheres. Mês passado, o governo aprovou novas leis mais duras contra a violência sexual.

“Não é apenas a garota em Deli... isso tem acontecido por anos e anos e anos”, disse Manson. “Só está aparecendo agora, o que é bom, porque talvez as coisas mudem.”

Imran Latha, dono da companhia Visit India, em Mubai, disse que homens indianos assumem que as mulheres estrangeiras estão ansiosas por sexo quando as veem bebendo ou usando drogas. A única solução, disse ele, é as turistas se vestirem discretamente e se protegerem.

“Confie em mim, a Índia não pode fazer nada, o governo indiano é o pior do mundo. Se não podemos proteger nem mesmo nossos compatriotas o que podemos fazer pelos estrangeiros?”, afirmou ele.

No final da viagem de seis semana, De Paolo e Wahner disseram que o incidente de serem apalpadas contra a vontade não será a única coisa que lembrarão a respeito da vasta e rica cultura do país.

“Agora, depois dessa viagem, eu nunca vou viajar sozinha como uma mulher indiana”, disse Wahner.

Elas rapidamente aprenderam a tomar precauções: sempre se vestir discretamente com mangas longas e calças fora das grandes cidades, raramente se aventurar fora de sua hospedagem depois do anoitecer. Ser amigável, mas não simpática demais com homem e tentar estar acompanhada de uma mulher indiana.

“É estranho, você não quer julgar todo homem que se senta perto de você”, disse Wahner. “Mas às vezes no final, sim, eles tocam você.”

Fonte: AP AP - The Associated Press. Todos os direitos reservados. Este material não pode ser copiado, transmitido, reformado o redistribuido.
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