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Infidelidade: biologicamente natural, moralmente questionável

No dia 24 de novembro, o jornal Correio Brasiliense trouxe uma matéria sobre a infidelidade dos habitantes da capital federal, baseado num estudo conduzido na Universidade Católica de Brasília como tese de doutorado de Alexandre Damasceno. Segundo a pesquisa, que entrevistou 1521 pessoas no Distrito Federal, 18,3% dos homens casados de lá tiveram relações sexuais foram do matrimônio e 11,2% das mulheres já pularam a cerca, alegando os mais diversos motivos para as escapadas como estarem sempre distantes do parceiro, brigas de casal, diferenças no apetite sexual, horários incompatíveis e até mesmo o fato da moça estar amamentando ou grávida.

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O mais engraçado é que o índice de Brasília ainda é baixo em relação ao resto do país. Um famoso estudo conduzido pela médica Carmita Abdo entre 2002 e 2003 mostrou que entre os brasileiros, uma média de 50,6% dos homens trai suas parceiras, enquanto no público feminino esse índice é de 25,7%. Só por curiosidade, os estados campeões de infidelidade masculina são Bahia em primeiro lugar com mais de 60% dos cabras-macho aprontando, Pará em segundo e Ceará em terceiro. São Paulo está em último lugar em índice de traição com Pernambuco em penúltimo e Santa Catarina seguindo. Já entre as mulheres, as mais traidoras segundo o livro são as cariocas, seguidas pelas gaúchas. O Pará e Santa Catarina possuem as moças mais fiéis (ou que menos aprontam, porque estamos falando em uma porcentagem mínima na casa dos 20%).

Os tempos são outros e resta a pergunta: o que é traição?

A pesquisadora já declarou em entrevistas que por sermos habitantes de um país muito erotizado, acabamos incorporando o relacionamento extraconjugal na nossa cultura, mesmo que não seja isso que as pessoas realmente almejem. Se formos analisar historicamente, nos tempos de nossos avós era muito comum que um homem tivesse amantes, mesmo porque prevalecia a idéia que existiam mulheres para casar e mulheres para se transar. É a famosa frase de Robert De Niro no filme A máfia do divã, onde quando abordado porque ele transava com garotas de programa se era casado, o mafioso diz: "Ei, a boca da minha mulher é que dá beijo de boa-noite nas crianças". Ou seja, as Amélias não poderiam fazer certas coisas na cama (sexo oral, por exemplo) e os maridos iam satisfazer suas fantasias fora.

"Hoje em dia existem mais oportunidades para se trair quando comparado a décadas atrás", afirma Maria Cecília Micheloti, psicoterapeuta e psicóloga que atende muitos casos onde a traição ronda relacionamentos. "Existem mais meios para isso e também o fato de que hoje a mulher está integrada no mercado de trabalho", complementou. Isso é um fato interessante: passamos mais tempo com interessantes colegas do que com nossos parceiros e assim, a tentação acaba sendo grande. Junte-se isso à revolução sexual, que liberou as moças para procurarem o seu prazer na relação e a infidelidade tomou outro aspecto. Antigamente um homem pular a cerca era até estimulado e aceito pelos motivos que já abordamos. Atualmente, ele vai encontrar o que procura em uma moça de família.

Por outro lado, a mulher tem direito ao orgasmo e o prazer sexual, assim como companheirismo, cumplicidade e amor e se o parceiro falhar em qualquer um desses itens, ela seguramente "entrevistará" outros candidatos. Mudaram também as prioridades femininas. O sonho de toda mulher há 50 anos era casar, ter seu lar e procriar. Hoje isso caiu para segundo plano e é mais fácil ter relacionamentos light e sem profundidade do que enfrentar os medos que a relação traz. Segundo a Dra Micheloti, muitas mulheres hoje não ousam entrar em algo mais profundo e driblam a vida a dois, especialmente aquelas que trazem algum trauma sentimental e acha que curar essas dores é muito difícil.

Homens e mulheres traem por motivos diversos

As mulheres também mudaram sua opinião sobre trair e ser traída. Não toleram mais a traição tão facilmente (mas perdoam mais), não abaixam mais a cabeça quando são chifradas e também não se sentem mais tão culpadas quando traem, especialmente se for um marido infiel. Essa vingança contra um traidor é um dos motivos que norteia a decisão das moçoilas em dar suas escapadas, assim como a procura pelo novo, a carência afetiva e até mesmo oxigenar a relação. E, em muitos casos, elas acabam se envolvendo afetivamente com o amante.

Tradicionalmente e culturalmente, a visão do homem traidor está intimamente ligada a um ar de promiscuidade masculina. Homens traem por diversos motivos, mas na sua grande maioria, consegue ficar apenas no sexo. E é por isso que quando um homem descobre que foi chifrado, seu mundo desaba e é preciso muita maturidade e estrutura para conseguir perdoar. O traído é atingido em cheio em seu ego de macho poderoso, tem o orgulho ferido e se sente o mais impotente dos seres humanos. "Quando um marido traído consegue elaborar a traição de sua esposa e superá-la, ainda vai enfrentar o preconceito dos amigos e das amigas. Porque uma reação exacerbada, violenta, é esperada daquele indivíduo, do mesmo jeito que é esperado que uma mulher perdoe o rapaz traidor", afirmou Maria Cecília.

Lembremos que existem também atenuantes para a traição. Obviamente que os traidores natos estão por aí, mas em alguns casos podemos ser empurrados para uma infidelidade, ou seja, a própria parceira cria circunstâncias para ser traída, através de falta de diálogo, incapacidade da namorada/esposa de rever certas atitudes, passividade etc. Não é norma de conduta, mas muitos homens (e algumas mulheres também) correm atrás de um terceiro vértice para chegar à conclusão que a esposa é o grande amor da sua vida.

E antes que sejamos totalmente detonados com essa imagem de pessoas sem moral e ética nos relacionamentos, convenhamos que o macho mudou. Aquele cara grosseiro e machista de outros tempos está perdendo a força e o homem com H está tentando encontrar seu caminho. Se há alguns anos, mulheres eram a grande massa nas salas de terapia, atualmente o público masculino cresceu enormemente sua participação e com uma vantagem: homens, por serem mais objetivos, acabam se abrindo mais e profundamente frente a um psicólogo que suas contrapartes femininas, contrariando o mito de que homem não fala.

E no caso de uma traição, o melhor é agir como os americanos descritos no livro Na Ponta da Língua de Pamela Druckerman que contam para o parceiro ou parceira seu ato vil e agüentam o exílio social ou ser como os franceses que adotam a política do ¿não pergunte, não conte"? "Não há regra para isso e cada casal tem sua dinâmica para lidar com esse assunto, mas temos que sempre lembrar que a maioria das pessoas não consegue lidar bem com a verdade. E também que se a pessoa tem a necessidade de falar, tem que estar consciente dos riscos", alerta a psicóloga Maria Cecília. Talvez nesses casos o aprendizado trazido pelo ato, será mais rico e edificante do que ficar soltando o verbo por aí.

A ciência diz que monogamia é antinatural, mas necessária

O biólogo evolucionista e professor de psicologia da Universidade de Washington, David P. Barash, lançou recentemente um livro chamado Strange Bedfellows: The Surprising Connection Between Sex, Evolution and Monogamy (Estranhos parceiros de cama: a conexão entre sexo, evolução e monogamia) e afirma que instintivamente não deveríamos ser monogâmicos, já que na natureza esse conceito é raríssimo. Até mesmo os famosos pingüins imperador, que estrelaram um filme sobre sua marcha e que se tornaram símbolos da fidelidade, não são tão santos assim. Na verdade são fiéis por uma temporada, porque no ano seguinte, querem uma nova parceira. Albatrozes e cisnes também não são monogâmicos como se pensava. Interessantemente, o rato californiano, o rato-saltador-gigante de Madagascar, o castor e o sagüi pigmeu o são, justamente para que dois animais cuidem de sua ninhada e construam lares. E é aí que reside uma das vantagens em ser monogâmico no homem: a criança ganha com o esforço duplo dos pais e cresce mais confiante quando os dois estão por perto. Além disso, a relação a dois ativa neurônios ligados à empatia, atuam no sistema hormonal, fazem com que o sexo seja mais satisfatório (na maioria dos casos) e isso sem contar o incrível e indescritível significado do amor.

Enfim, monogamia e fidelidade não são coisas fáceis de manter. Talvez sejamos como a descrição que o pensador grego Plutarco fez de César: "ele ama a traição e odeia os traidores". Ou deveríamos encarar a infidelidade de uma maneira menos emotiva. No filme Tudo bem no ano que vem de 1978, baseado em uma peça teatral, um casal se encontra anualmente, no mesmo feriado, em um hotel à beira-mar para um fim-de-semana a dois. Cada um tem seu próprio parceiro, mas aqueles dois dias os preparavam para mais um ano como um bom marido e boa esposa, tanto que sempre eles tinham que responder a duas questões: "qual foi a melhor coisa que seu marido/esposa fez durante o ano e qual a coisa mais ridícula que fizeram". Nesse caso é a infidelidade trabalhando em nome da monogamia. Parece complicado. E é.










Fonte: Especial para Terra

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