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Quinta, 21 de janeiro de 2010, 14h59

Blog americano lança a campanha "Vinhos pelo Haiti"

Carlos Alberto Barbosa

Face às tragédias como a ocorrida na última semana no Haiti, falar de vinhos e prazeres da vida parece ser algo carente de sentido. Em uma sociedade que privilegia e idolatra os resultados do trabalho árduo sem tempo para o lazer, os prazeres não raramente estão associados à culpa. Diante de situações trágicas e desoladoras como o terremoto do Haiti, discutir aromas e sabores contidos em uma garrafa de algumas centenas de reais parece um despropósito.

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Por isso mesmo, visando unir prazer e a urgência de uma prática solidária, esta semana alguns membros das comunidades de enófilos e blogueiros dos EUA iniciaram uma série de ações em prol do Haiti. Entre elas, está a Wines for Haiti, iniciativa do blog Palate Press, editado por David Honig. A ação é simples e eficiente: trata-se de um leilão de vinhos ou peças ligadas ao mundo do vinho que são leiloados a partir de posts no blog com lances dados nos comentários dos posts.

Diversas vinícolas, enófilos, editoras, artistas plásticos e designers atenderam o chamado de Honig e doaram peças para serem leiloadas de maneira simples e direta no blog Palate Press. A partir da formação dos lotes, o blog publica um post com detalhes da peça, seu valor de mercado e lance inicial mínimo - que gira em torno da metade do valor de mercado do bem a ser arrematado.

Entre os lotes que já estão recebendo lances há, por exemplo, uma garrafa de 6 litros do Cornerstone Cellars 2003, com preço de mercado estimado em mil dólares. A vinícola é ranqueada como uma dos oito produtoras "World Class" de Cabernet Sauvignon da Califórnia, colocando seu vinho ao lado dos legendários Mondavi Reserve, Phelps Insignia, Ridge Monte Bello e Stags Leap, entre outros. Também fazem parte dos lotes que entraram para leilão uma garrafa igualmente de 6 litros do vinho Rodney Strong Cabernet Sauvignon 2005, com preço de mercado de 600 dólares e lance inicial equivalente à metade do seu valor. A safra leiloada recebeu 91 pontos de Robert Parker.

Há também uma garrafa de 3 litros do Shafer Vineyards Hillside Select 2004, vinho que alcançou os 97 pontos na avaliação de Robert Parker, e seu valor de mercado é estimado em mais de mil dólares. Com chamada inicial de 500 dólares, o lote já recebeu lances que bateram seu valor de mercado.

Em outro post do blog, um lote contendo uma vertical de todas as safras do The Spaniard, da polêmica e irreverente vinícola Twisted Oak, já contava, até o fechamento deste texto, com seis lances.

Aparentemente, o sofrimento haitiano e a necessidade de solidariedade internacional mobilizaram uma série de pessoas e instituições americanas envolvidas no negócio do vinho a ajudar o sofrido povo daquele país que, nos últimos anos já sofreu inúmeros traumas sociais, ciclones e agora um terremoto (aliás, enquanto este texto era redigido, na manhã do dia 20 de janeiro, as agências de notícias informavam que um novo abalo sísmico havia ocorrido no Haiti).

Essa não é a primeira vez que o editor de Palate Press, David Honig, se envolve em ações sociais. Em abril de 2009, Honig concebeu o blog Brother, can you spare a bottle? Em tradução livre, Irmão, você pode dispor de uma garrafa? Segundo Honig, a experiência com aquele blog demonstrou que os apreciadores de vinho estão dispostos a participar de maneira solidária de movimentos de ajuda e assistência a necessitados. A tragédia do Haiti parece ser agora seu primeiro grande desafio. Com números de vítimas fatais que podem bater a casa das centenas de milhares, a população do Haiti conta com o apoio e ajuda humanitária de todos.

Outras ações
Além do Palate Press, surgiram outras ações envolvendo o público dos apreciadores da boa comida e boa bebida disposto a levantar fundos de ajuda ao Haiti. Jantares e degustações com rendas revertidas para fundos humanitários e um curioso sorteio baseado nos números do índice Dow Jones da Bolsa de Nova Iorque, cujo prêmio será um lote de vinhos de Bordeaux, capitaneado por Dale Williams, um dos membros do Wine Lovers Discussion Group, são alguns exemplos de ações.

A criatividade e a maneira simples com que a comunidade do vinho norte americana se mobilizou para auxiliar o Haiti mostra o quanto poderia ser fácil, a partir das redes sociais, transformar em realidade iniciativas como esta em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil. Certamente os blogueiros de vinhos, cervejas e gastronomia em geral possuem uma ampla rede de contatos que poderia ser usada para ações desta natureza. Segundo pesquisa realizada pela Nielsen, a participação das redes sociais em eventos de ajuda humanitária tem crescido de maneira astronômica. O instituto de pesquisa cita o twitter da cruz vermelha internacional, que normalmente registra de 50 a 100 novos seguidores por dia, e que desde a última semana passou a contar com mais de 10 mil novos seguidores.

No Brasil
A recente catástrofe sofrida pelos moradores de São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba (SP), quando chuvas torrenciais colocaram a cidade no chão e deixaram mais de 4 mil desabrigados, sensibilizou a proprietária do restaurante paulistano Lá da Venda, que tem fortes ligações com a região, e mais especificamente com a cidade devastada pelas águas. A maneira encontrada pelo restaurante para auxiliar na reconstrução de São Luiz do Paraitinga foi reverter metade do valor de um de seus pratos servido aos sábados para um fundo de apoio à cidade.

Existem ainda algumas ações isoladas, de outros tantos restaurantes no país que revertem parte de sua renda em determinado período para angariar fundos para instituições de amparo, mas aparentemente ainda temos muito o que caminhar nessa estrada que liga prazer a questões sociais. Seria muito bom ver alguns ícones da indústria vitivinícola brasileira ou algum grande vinho do portfólio de uma importadora nacional, ou mesmo um exemplar saído de uma das tantas adegas particulares de enófilos, sendo leiloados em benefício de uma causa social, mostrando que prazer e solidariedade podem andar juntos também por aqui.

Dividir uma garrafa à mesa com amigos e falar o quanto o vinho aproxima as pessoas não é, nem de longe, um ato de solidariedade ou filantropia. Ao menos não com a amplitude necessária para alcançar populações envolvidas em situações como do Haiti, nas quais o poder público local não tem forças ou recursos suficientes para, isoladamente, mudar o rumo da história.

Especial para Terra

Getty Images
Alguns membros das comunidades de enófilos e blogueiros dos EUA iniciaram uma série de ações em prol do Haiti
Alguns membros das comunidades de enófilos e blogueiros dos EUA iniciaram uma série de ações em prol do Haiti

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