
Marina Gold
Leio no jornal de domingo que o consumo de produtos de distinção não pára de crescer no nosso país. A notícia indicava que, agora, chegou a vez daqueles que os especialistas chamam de "Classe C".
Ótimo. Bastante gente podendo adquirir marcas importantes e, com isso, afirmam os pesquisadores, aumentando a "autoestima". Relógios, cosméticos, tênis de grife e tantos outros confortos vão ficando cada dia mais acessíveis, sonhos realizáveis que fazem a cabeça e o coração de um batalhão de pessoas que buscam, outra vez segundo os especialistas em consumo, "pertencimento".
A boa notícia dominical trouxe-me à lembrança uma passagem que ocorreu há mais ou menos um ano. Uma amiga, depois de muito insistir, apresentou-me outra amiga. Marcamos um encontro, almocinho num lugar tranquilo e bacana. Arrumei-me condizentemente e fui, feliz. A reunião foi mesmo agradável. Em pouco tempo a empatia entre nós estava solta e aproveitamos para passar algumas horas animadas de risos e alegre bate-papo. A nova amiga, toda interessada, tinha curiosidade para conhecer e perguntar algumas coisas para a "vidente".
Quando estávamos saindo, com delicadeza, ela comentou: ¿Puxa, você me surpreendeu. Gostei. Mas, na verdade, outra coisa me chamou a atenção... como você está bem vestida, um luxo (ela destacou a palavrinha, que chamou a minha atenção, com um gestinho com os dedos!). Bonito sapato, bolsa discreta e linda¿. Achei graça e completei: "Também passei um perfume agradável, estou com os brincos que gosto tanto e frequento um bom cabeleireiro". Ela emendou: "Isso mesmo. Reparei e queria perguntar se sua relação com essas coisas do mundo, os objetos de consumo, não atrapalham a intensidade da espiritualidade. Luxo e desapego material podem conviver?". Percebi, então, que ela acabava de revelar o centro das suas preocupações e problemas. Convidei minhas duas companheiras para um chá e, tranquilamente, pude desdobrar o questionamento apontado. Reproduzo aqui, em linhas gerais, a explicação que organizei enquanto saboreava o toque de tangerina de um bom Earl Grey.
Insisti para que se percebesse que Luxo mesmo não é comprar, é fruir e se relacionar ativamente com o que se têm. Comprar demais e depressa demais é exatamente o oposto do Luxo. Trata-se de cultura, e não de riqueza vazia. Não é ostentar, é estar equilibrado e de bem com a vida. Luxo, em resumo é a serenidade da satisfação com coisas boas (sobretudo as mais baratas e simples). Um banho agradável, um lençol limpinho, um pãozinho com geléia.
O meu trabalho com as coisas imateriais trouxe, paradoxalmente, uma compreensão apurada do devido valor do dinheiro. Entendi que Luxo é a trégua que podemos dar para nós mesmos na luta diária pela sobrevivência. É o prazer que encontramos na qualidade das coisas bem feitas, nas experiências intensas e emocionantes. Assim, se arte, religião e magia ¿ mistérios reveladores do talento humano ¿ são luxos, um bonito anel também o é.
Nada impede a pessoa, que procure respostas espirituais, de gostar de um bonito colar ou de uma vistosa gravata. Claro que seu compromisso, consigo mesmo e com os outros, é usar sem esnobismo, sem exibicionismo, com temperança e equilíbrio, de forma saudável para que siga no pescoço como um enfeite e, nunca, como uma forca.
Especial para Terra
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Getty Images
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